Capítulo 17 -
SONHOS
O Espiritismo não podia deixar de interessar-se pelo
problema dos sonhos, dando também, sobre eles, a sua interpretação.
Não podia o Espiritismo fugir a esse imperativo, eis que
as manifestações oníricas têm acentuada importância em nossa vida de relação,
uma vez que os chamados «sonhos espíritas» resultam, via de regra, das nossas
próprias disposições, exercidas e cultivadas no estado de vigília.
A Doutrina Espírita não pode estar ausente de qualquer movimento superior, de fundo espiritual, que vise a amparar o Espírito humano
na sua rota evolutiva.
Não é a Doutrina um movimento literário, circunscrito a
gabinetes.
É um programa para ajudar o homem a crescer para Deus, a
fim de que, elevando-se, corresponda ao imenso sacrifício daquele que, sendo o
Cristo de Deus, se fez Homem para que os homens se tornassem Cristos.
Os sonhos, em sua generalidade, não representam, como
muitos pensam, uma fantasia das nossas almas, enquanto há o repouso do corpo
físico.
Todos eles revelam, em sua estrutura, como fundamento principal, a emancipação da alma, assinalando a sua atividade extracorpórea,
quando então se lhe associam à consciência livre, variadas impressões e sensações de ordem fisiológica e psicológica.
Estudemos o assunto, que se reveste de singular encanto,
à luz do seguinte gráfico:
CLASSIFICAÇÃO DOS
SONHOS = {Comuns. = {Repercussão de nossas disposições, Físicas ou
psicológicas. {Reflexivos. = {Exteriorização de impulsos e imagens arquivadas
no cérebro. {Espíritas. = {Atividade real e efetiva do Espírito durante o sono.
Feita a classificação no seu tríplice aspecto, façamos,
agora, a devida especificação:
Comuns: O Espírito é envolvido na onda de pensamentos que lhe são próprios, bem assim dos outros.
Reflexivos: A modificação vibratória, resultante do
desprendimento pelo sono, faz o Espírito entrar em relação com fatos, imagens,
paisagens e acontecimentos remotos, desta e de outras vidas.
Espíritas: Por «sonhos espíritas», situamos aqueles em
que o Espírito se encontra, fora do corpo, com:
a)
— parentes
b)
— amigos
c)
— instrutores
d) — inimigos, etc.
Outras denominações poderão, sem dúvida, ser-lhes dadas,
o que, supomos, não alterará a essência do fenômeno em si mesmo.
Estamos ainda no plano muito relativo das coisas. Assim
sendo, tendo cada palavra o seu lugar e a sua propriedade, cabia-nos o
imperativo da nomenclatura.
Geralmente temos sonhos imprecisos, desconexos, frequentemente interrompidos por cenas e paisagens inteiramente estranhas, sem o mais
elementar sentido de ordem e sequência.
Serão esses os sonhos comuns.
Aqueles em que o nosso Espírito, desligando-se parcialmente do corpo, se vê envolvido e dominado pela onda de imagens e pensamentos, seus e
do mundo exterior, uma vez que vivemos num misterioso turbilhão das mais
desencontradas idéias.
O mundo psíquico que nos cerca reflete as vibrações de
bilhões de pessoas encarnadas e desencarnadas.
Deixando o corpo em repouso, o Espírito ingressa no plano
espiritual com apurada sensibilidade, facultando ao campo sensório o
recolhimento, embarafustado, de desencontradas imagens antes não percebidas, em
face das limitações impostas pelo cérebro físico.
Ao despertarmos, guardaremos imprecisa recordação de
tudo, especialmente da ausência de conexão nos acontecimentos que, em forma de
incompreensível sonho, povoaram a nossa vida mental.
A esses sonhos chamaríamos sonhos comuns, por serem eles
os mais frequentes.
Por reflexivos, categorizamos os sonhos em que a alma,
abandonando o corpo físico, registra as impressões e imagens arquivadas no
subconsciente e plasmadas na organização perispiritual.
Tal registro é possível de ser feito em virtude da
modificação vibratória, que põe o Espírito em relação com fatos e paisagens remotos,
desta e de outras existências.
Ocorrências de séculos e milênios gravam-se indelevelmente em nossa memória, estratificando-se em camadas superpostas.
A modificação vibratória, determinada pela liberdade de
que passa a gozar o Espírito, no sono, fá-lo entrar em relação com
acontecimentos e cenas de eras distantes, vindos à tona em forma de sonho.
A esses sonhos, na esquematização de nosso singelo estudo, daremos a denominação de «reflexivos», por refletirem eles,
evidentemente, situações anteriormente vividas.
Cataloguemos, por último, os sonhos espíritas.
Esses se revestem de maior interesse para nós, por
atenderem com mais exatidão e justeza à finalidade deste livro, qual seja a de,
sem fugir à feição evangélica, fazer com que todos os capítulos nos sejam um
convite à reforma interior, como base para a nossa felicidade e meio para, em
nome da fraternidade cristã, melhor servirmos ao próximo.
Nos sonhos espíritas a alma, desprendida do corpo, exerce
atividade real e afetiva, facultando meios de encontrarmo-nos com parentes,
amigos, instrutores e, também, com os nossos inimigos, desta e de outras
vidas.
Quando os olhos se fecham, com a visitação do sono, o
nosso Espírito parte em disparada, por influxo magnético para os locais de
sua preferência.
O viciado procurará os outros.
O religioso buscará um templo.
O sacerdote do Bem irá ao encontro do sofrimento e da
lágrima, para assisti-los fraternalmente.
Enquanto despertos, os imperativos da vida contingente nos conservam no trabalho, na execução dos deveres que nos são peculiares.
Adormecendo, a coisa muda de figura.
Desaparecem, como por encanto, as conveniências.
A atividade extracorpórea passará a refletir, sem
dissimulações ou constrangimentos, as nossas reais e afestivadas inclinações,
superiores ou inferiores.
Buscamos sempre, durante o sono, companheiros que se
afinam conosco e com os ideais que nos são peculiares.
Para quem cultive a irresponsabilidade e a invigilância
quase sempre os sonhos revelarão convívio pouco lisonjeiro, cabendo, todavia,
aqui a ressalva doutrinária, exposta na caracterização dos sonhos reflexivos,
de que, embora tendo no presente uma vida mais ou menos equilibrada,
poderemos, logicamente, reviver cenas desagradáveis, que permanecem
virtualmente gravadas em nosso molde perispiritual.
Quem exercite, abnegadamente, o gosto pelos problemas superiores, buscará durante o sono a companhia dos que lhe podem ajudar,
proporcionando-lhe esclarecimento e instrução.
O tipo de vida
que levarmos, durante o dia, determinará invariavelmente o tipo de sonhos que
a noite nos ofertará, em resposta às nossas tendências.
As companhias diurnas serão, quase sempre, as companhias noturnas, fora do vaso físico.
O esforço de evangelização das nossas vidas e a luta
incessante pela modificação dos nossos costumes, objetivando a purificação dos
nossos sentimentos, dar-nos-ão, sem dúvida, o prêmio de sonhos edificantes e maravilhosos, expressando trabalho e realização.
Com instrutores devotados nos encontraremos e deles
ouviremos conselhos e reconforto.
Dessas sombras amigas, que acompanham a migalha da nossas boa vontade, receberemos estímulo para as nossas sublimes esperanças.
(Parte integrante do
livro ESTUDANDO A MEDIUNIDADE - MARTINS PERALVA)